O intestino é mesmo um “segundo cérebro”?
Pela Patricia de Faria
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O intestino é mesmo um “segundo cérebro”?
Pela Patricia de Faria
Resumo
O intestino possui um sistema nervoso próprio, chamado sistema nervoso entérico, extremamente complexo. Por isso, às vezes é chamado de “segundo cérebro”, mas essa expressão é apenas uma metáfora.
O que realmente existe é uma comunicação bidirecional entre intestino e cérebro, conhecida como eixo intestino-cérebro, envolvendo sinais neurais, hormonais, metabólicos e imunológicos.
A microbiota intestinal também participa dessa comunicação por meio da produção de metabólitos e da interação com o sistema imune e metabólico. No entanto, muitas associações ainda não estabelecem relações causais claras em humanos.
Afirmações populares, como a ideia de que o intestino “controla o humor” ou que a serotonina intestinal determina diretamente o funcionamento do cérebro, costumam representar simplificações excessivas de processos biológicos complexos.
O intestino também desempenha um papel importante na regulação imunológica, pois abriga uma grande quantidade de células do sistema imune associadas ao tecido linfoide intestinal (GALT).
Alterações da barreira intestinal e da microbiota vêm sendo investigadas em diferentes doenças metabólicas e autoimunes, mas essas relações ainda não estão completamente esclarecidas.
O que já sabemos com mais segurança é que fatores de estilo de vida como alimentação adequada, sono de qualidade, atividade física, manejo do estresse e hidratação, estão associados tanto a melhor saúde intestinal quanto a melhor saúde metabólica e mental.
Conteúdo completo
Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir que o intestino seria um “segundo cérebro”. A ideia ganhou popularidade em livros, redes sociais e até em algumas abordagens clínicas.
Buscando rapidamente esse tema na internet, apareceram afirmações bastante conhecidas: que o intestino produziria a maior parte da serotonina do corpo, que controlaria o cérebro, que grande parte da imunidade estaria localizada nele ou que alterações da microbiota poderiam explicar diferentes doenças.
Muitas dessas afirmações partem de observações científicas reais, mas frequentemente são apresentadas de forma simplificada ou extrapoladas além do que os estudos permitem afirmar.
Por isso, organizei este texto em formato de perguntas e respostas, analisando algumas das afirmações mais comuns sobre o chamado eixo intestino-cérebro: o que faz sentido, o que representa simplificação e o que ainda permanece em investigação.
Dúvida 1: O intestino realmente é um “segundo cérebro”?
Não no sentido literal.
O trato gastrointestinal possui, de fato, um sistema nervoso próprio extremamente complexo chamado sistema nervoso entérico. Essa rede contém milhões de neurônios distribuídos ao longo da parede intestinal e é capaz de coordenar diversas funções digestivas, como a motilidade intestinal, a secreção de enzimas e diversos reflexos locais.
Por essa complexidade, alguns autores passaram a utilizar a expressão “segundo cérebro” como uma metáfora para descrever esse sistema.
Evidentemente, essa comparação não significa que o intestino desempenhe funções cognitivas como memória, raciocínio ou tomada de decisões.
O que realmente sustenta essa analogia é a existência de uma comunicação constante entre intestino e cérebro, conhecida como eixo intestino–cérebro (gut–brain axis).
Dúvida 2: O intestino controla o cérebro?
Também não exatamente.
O que existe é uma comunicação bidirecional. Isso significa que sinais provenientes do intestino podem influenciar o cérebro, e o cérebro também modula profundamente o funcionamento intestinal.
Estresse, emoções, padrões de sono e fatores comportamentais podem alterar a motilidade intestinal, a secreção digestiva, a sensibilidade visceral e até a composição da microbiota intestinal.
Ou seja, não se trata de um sistema hierárquico simples em que um órgão “comanda” o outro, mas de um sistema integrado de regulação fisiológica.
Dúvida 3: Como o intestino se comunica com o cérebro?
A comunicação entre intestino e cérebro ocorre por diferentes caminhos que funcionam de forma integrada.
Via neural
A principal rota neural é o nervo vago, que conecta diretamente o trato gastrointestinal ao sistema nervoso central.
Células especializadas do intestino detectam a presença de nutrientes e enviam sinais ao cérebro por meio desse nervo. Esses sinais participam da regulação da saciedade, da ingestão alimentar, do ritmo digestivo e das respostas metabólicas após as refeições.
Hormônios intestinais associados à saciedade, como GLP-1, PYY e CCK, estimulam aferências vagais e contribuem para reduzir a ingestão alimentar. Em contraste, a grelina, produzida principalmente no estômago durante o jejum, está associada à sensação de fome.
Essa comunicação participa da regulação fisiológica do apetite e da homeostase energética.
Via hormonal
O intestino também atua como um importante órgão endócrino.
Diversas células intestinais liberam hormônios em resposta à ingestão de alimentos. Esses hormônios alcançam o cérebro pela circulação sanguínea e modulam regiões relacionadas à fome, saciedade e recompensa alimentar.
O entendimento desses mecanismos foi fundamental para o desenvolvimento de medicamentos que atuam nesses sistemas, como os agonistas de GLP-1, hoje amplamente utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.
Via microbiota
Outro componente relevante desse eixo é a microbiota intestinal.
As bactérias que habitam o intestino produzem metabólitos, entre eles os ácidos graxos de cadeia curta, que podem influenciar a secreção de hormônios intestinais, a atividade do nervo vago e processos metabólicos e inflamatórios.
Estudos em humanos e modelos experimentais sugerem que alterações na microbiota podem modificar a regulação do apetite e do metabolismo energético. No entanto, essa área ainda está em evolução e muitas associações observadas não permitem estabelecer relações causais claras.
Dúvida 4: O intestino realmente produz neurotransmissores como serotonina?
Sim, mas essa afirmação costuma ser interpretada de forma exagerada.
Uma grande parte da serotonina do organismo é sintetizada no trato gastrointestinal, principalmente em células chamadas enterocromafins. Essa serotonina participa de funções locais importantes, como a regulação da motilidade intestinal.
No entanto, a serotonina produzida no intestino não atravessa diretamente a barreira hematoencefálica. Isso significa que sua produção intestinal não se traduz automaticamente em efeitos diretos sobre o humor ou sobre o funcionamento do cérebro.
Por isso, afirmações comuns na internet, como a ideia de que “80% da serotonina está no intestino e, portanto, o intestino controla o humor” representam uma simplificação excessiva.
A relação entre intestino, neurotransmissores e comportamento ainda está sendo investigada e envolve mecanismos muito mais complexos do que frequentemente aparece.
Dúvida 5: A microbiota intestinal influencia a saúde mental?
Essa é uma área de grande interesse científico, mas que ainda exige cautela na interpretação.
Diversos estudos associam alterações da microbiota intestinal a condições como ansiedade, depressão e outros distúrbios neuropsiquiátricos. Em modelos experimentais com animais, mudanças na microbiota podem influenciar comportamento, resposta ao estresse e alguns processos neurobiológicos.
No entanto, em humanos, grande parte das evidências ainda é observacional. Isso significa que muitas associações foram identificadas, mas estabelecer relações causais diretas continua sendo um desafio.
Por esse motivo, embora o eixo intestino-cérebro seja um campo promissor de pesquisa, muitas das conclusões divulgadas fora do meio científico ainda são prematuras ou simplificadas.
Dúvida 6: O famoso “frio na barriga” vem do intestino?
Em parte, sim.
Sensações físicas associadas a emoções, como o chamado “frio na barriga”, náusea em situações de ansiedade ou perda de apetite durante períodos de estresse, refletem justamente a comunicação entre cérebro e trato gastrointestinal.
O sistema nervoso autônomo pode alterar rapidamente a atividade intestinal em resposta a estados emocionais. Da mesma forma, distúrbios gastrointestinais também podem influenciar o bem-estar e o estado emocional.
Dúvida 7: Por que o intestino tem um papel importante na imunidade?
O intestino abriga uma grande quantidade de células do sistema imunológico associadas ao chamado tecido linfoide intestinal (GALT).
Esse sistema atua constantemente na interface entre o organismo e o ambiente externo representado pelo conteúdo intestinal.
Do ponto de vista biológico, o interior do trato digestivo ainda é considerado uma extensão do ambiente externo: tudo o que ingerimos permanece “fora do corpo” até atravessar a barreira intestinal e entrar na circulação.
Por isso, o trato gastrointestinal desempenha um papel importante na vigilância imunológica. No entanto, isso não significa que a imunidade dependa exclusivamente do intestino ou que alterações intestinais expliquem isoladamente doenças sistêmicas.
Dúvida 8: E o que dizer sobre “permeabilidade intestinal”?
Outro tema frequentemente associado ao eixo intestino-cérebro é a chamada permeabilidade intestinal aumentada, popularmente conhecida como “leaky gut”.
A barreira intestinal é formada por células epiteliais conectadas por estruturas chamadas tight junctions, que regulam a passagem de substâncias entre o lúmen intestinal e a circulação.
Quando essa barreira é comprometida, produtos bacterianos como o lipopolissacarídeo (LPS) podem atravessar a mucosa intestinal e ativar respostas inflamatórias sistêmicas por meio de diferentes vias imunológicas.
Alterações nessa barreira têm sido associadas a condições como obesidade, resistência à insulina, inflamação sistêmica de baixo grau e também no contexto de algumas doenças autoimunes. No entanto, em humanos, a maioria dessas associações ainda não estabelece relações causais claras.
Nas doenças metabólicas comuns, o grau de disfunção da barreira intestinal costuma ser muito menor do que aquele observado em doenças inflamatórias intestinais clássicas. Por isso, muitos pesquisadores consideram que essa disfunção pode atuar como um fator contributivo, mas dificilmente como causa isolada dessas condições.
Conclusão
O eixo intestino-cérebro representa, sem dúvida, um dos campos mais interessantes da fisiologia humana contemporânea. No entanto, como ocorre em muitos sistemas biológicos complexos, os avanços científicos frequentemente revelam mais nuances do que respostas simples.
Ainda estamos longe de compreender completamente todas as relações causais entre microbiota, função intestinal, metabolismo e saúde mental. Muitas das associações observadas permanecem em investigação.
Por outro lado, alguns pontos são bastante consistentes. Sabemos que fatores ligados ao estilo de vida como alimentação de boa qualidade, sono adequado, atividade física regular, manejo do estresse e hidratação, estão associados tanto a melhor funcionamento intestinal quanto a melhor saúde metabólica e mental.
Em outras palavras, mesmo que muitas perguntas sobre o eixo intestino-cérebro ainda estejam sendo investigadas, aquilo que já sabemos com mais segurança continua sendo bastante claro: cuidar do estilo de vida tende a beneficiar simultaneamente diferentes sistemas do organismo.
Referências
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Gershon MD, Margolis KG.The gut, its microbiome, and the brain: connections and communications. Journal of Clinical Investigation. 2021;131(18):e143768.
Margolis KG, Cryan JF, Mayer EA. The microbiota-gut-brain axis: from motility to mood. Gastroenterology. 2021;160(5):1486-1501.
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Attia P. A conexão intestino-cérebro.
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