Explicando a possível nova aposta para obesidade
Pelo Dr. Renato Tomioka
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Explicando a possível nova aposta para obesidade
Pelo Dr. Renato Tomioka
Hoje quero falar sobre um tema que venho vendo constantemente no consultório: Retatrutida
Vamos lá. É uma medicação experimental para obesidade que pode representar a próxima geração das canetas.
O que a torna diferente é o mecanismo. As canetas que vocês conhecem agem em um ou dois receptores. A retatrutida é um agonista triplo: GLP-1, GIP e glucagon.
Pensem nela como um carro com três motores trabalhando juntos.O GLP-1 e o GIP reduzem apetite e melhoram a sinalização da glicose. O glucagon, que é a peça nova nessa combinação, tende a aumentar o gasto energético e ajuda a explicar a redução tão expressiva de gordura no fígado (esteatose) vista nos estudos.
Os números são muito bons. Na fase 2, publicada no New England Journal of Medicine em 2023, a perda média de peso chegou a 24,2% em 48 semanas na dose de 12 mg. Agora na fase 3, o programa TRIUMPH começou a entregar resultados. Na TRIUMPH-1, divulgada pela Lilly em maio de 2026, a dose de 12 mg levou a uma perda média de 25,0% em 80 semanas, contra 3,9% no placebo. Em uma extensão mais longa, de 104 semanas, e na população de obesidade mais grave, esse número chegou perto de 30%, com quase metade dos participantes perdendo 30% ou mais do peso. Isso entra em uma faixa que, até pouco tempo atrás, a gente só associava à cirurgia bariátrica.
Mas aqui vem o ponto que de verdade importa: a retatrutida ainda não é um medicamento aprovado.
Não existe retatrutida disponível legalmente em farmácia para uso clínico. O que aparece hoje em mercado paralelo, Instagram, Telegram, sites de peptídeos e versões manipuladas não é acesso antecipado à inovação. É exposição a um produto sem nenhuma garantia de dose, pureza, estabilidade, esterilidade, armazenamento ou segurança. Vocês não sabem o que está dentro do frasco, e isso muda tudo.
Uma coisa é usar uma molécula dentro de um ensaio clínico, com critério de inclusão e exclusão, monitorização, ajuste de dose, controle de eventos adversos e farmacovigilância em cima. Outra coisa, completamente diferente, é injetar uma substância comprada fora da cadeia regulada confiando em um rótulo que ninguém auditou. Mesmo nos estudos, com tudo controlado, os efeitos adversos aparecem: náusea, vômito, diarreia, constipação, aumento da frequência cardíaca e mais abandono nas doses altas. E há sinais que ainda precisam de mais gente e mais tempo para serem entendidos.
Tem ainda uma pergunta mais sofisticada que vale. Quando a perda de peso é tão intensa, a questão não é “quantos quilos eu perdi?”. A pergunta certa é: que tipo de peso eu perdi? Perder gordura visceral, reduzir resistência à insulina, melhorar pressão, triglicérides, esteatose hepática e inflamação metabólica é excelente. Perder massa muscular, comer pouca proteína, não treinar força e trocar gordura por fragilidade é o oposto de longevidade.
Na Medicina 3.0, o objetivo nunca foi simplesmente ser mais leve. É ter menos risco cardiometabólico, mais massa muscular, mais capacidade funcional, melhor sono, melhor pressão arterial, melhor função gepática e mais anos de vida com autonomia.
A retatrutida pode se tornar uma ferramenta poderosa, talvez uma das mais importantes da medicina metabólica dos próximos anos. Mas ferramenta poderosa não combina com improviso.
Resumindo:
A retatrutida ainda não é uma opção aprovada para uso clínico. Não recomendo que usem versões de mercado paralelo, manipuladas ou “importadas” informalmente. Se você tem obesidade, pré-diabetes, diabetes, esteatose, apneia do sono ou risco cardiometabólico alto, procure uma avaliação médica de verdade, porque já existem tratamentos aprovados e estratégias seguras hoje (ex tirzepatida). E lembrem que emagrecimento de qualidade protege músculo, com proteína adequada, treino de força, sono e metas metabólicas claras.
O futuro da medicina metabólica é muito promissor. Mas em saúde, chegar antes nem sempre é chegar melhor. Às vezes, esperar a ciência terminar o trabalho é a decisão mais inteligente que existe.
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Sofia
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